Senhora - José de Alencar ~༊
"E o mundo é assim feito; que o fulgor satânico da beleza dessa mulher a sua maior sedução. Na acerba veemência da alma revolta, pressentiam-se o abismo de paixão; e entrevia-se que procelas de volúpia havia de ter o amor da virgem bacante".
Venho vos apresentar essa exímia obra de arte, romance de José martiniano de Alencar, publicado em 1875, na forma de folhetim. É um dos últimos romances de Alencar, publicado três anos antes da morte do escritor.
• José de Alencar •
José de Alencar viveu entre 1829 à 1877, foi um político brasileiro, advogado, dramaturgo, jornalista e romancista. Seus principais romances são "Iracema" e "Senhora".
Seu romance "O Guarani" publicado em formato de folhetim, no diário do Rio de janeiro obteve enorme sucesso e serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes que compôs a obra o Guarani.
Machado de Assis o escolheu para patrono da cadeira N° 23 da academia de letras. Eu não teria feito escolha melhor.
• Senhora •
Este romance se passa na segunda metade do século XIX da sociedade carioca e possui uma crítica ácida contra o capitalismo e a fragilidade dos valores burgueses sempre ligados ao dinheiro e a futilidade comportamental. Neste romance, Alencar compõe seu último perfil feminino: o de Aurélia Camargo, moça órfã e pobre, dotada de grande firmeza de caráter. Ela fica noiva de Fernando Seixas, um rapaz que a amava, mas que foi se deixando envolver pelas aparências da vida social, gastando além do que tinha e acabando por arruinar a própria família: a mãe viúva e a irmã solteira. Por isso, troca Aurélia por outra moça, Adelaide, a quem não amava, mas que possuía um dote mais valioso.
Aurélia passa a desprezar todos os homens. Porém, com a morte do avô, recebe inesperadamente uma grande herança e torna-se muito rica da noite para o dia, passando a ser a mulher mais cortejada de toda a corte do Rio de Janeiro. Movida pelo despeito e desejando vingar-se, resolve comprar seu “ex-noivo”. Ela incumbe seu tutor, Lemos, de propor a Fernando, através de negociações secretas, o casamento com uma rica jovem, oferecendo-lhe um dote de cem contos de réis. Em troca, exige que ele assine um contrato aceitando a condição de vir a conhecer a noiva apenas no dia do casamento. Está disposta, entretanto, a confessar o seu amor caso ele mostre dignidade, recusando a proposta indecente.
Fernando aceita sem pestanejar a proposta tão vantajosa e termina o noivado com Adelaide. Quando descobre que a moça é Aurélia, fica surpreso e feliz. Na noite de núpcias, no entanto, Aurélia o humilha profundamente, chamando-o de “oportunista” e “vendido”.
Só neste momento Seixas percebe o quanto fora ganancioso e vil. Ofendido, resolve recuperar sua dignidade e libertar-se de sua condição de escravo, comprado por cem contos de réis. Começa a trabalhar com afinco, com o intuito de devolver o dote de Aurélia. Vivem como estranhos na mesma casa durante onze meses, torturando-se com ironias, mas perante a sociedade, representam o “casal feliz”.
Durante esse tempo, Seixas recupera sua dignidade e passa a ser valorizado aos olhos de Aurélia. Ele consegue juntar o dinheiro do dote, devolve-o a Aurélia e se despede dela. Sem o impedimento vergonhoso que os separava, Aurélia sente-se livre para confessar o seu amor por Seixas. Os dois, igualados em amor e honra, podem desfrutar do casamento, que ainda não havia se consumado. O final é a reconciliação dos dois.
Um romance muito belo, Alencar investiu em uma linguagem repleta de musicalidade e poesia, uma leitura que prende do início ao fim. O livro é repleto de descrições, são elementos marcantes de identificação do estilo do autor. Um traço que perpassa por quase todos os seus romances, são detalhamentos inestimáveis de Alencar.
Confesso que livros que descrevem muito bem o personagem e o cenário no qual me fazem imaginar são os meus preferidos, posso afirmar que o livro Senhora é o mais belo de todos os romances e o meu favorito.
a linguagem do livro possui muitos termos comparativos e arqueológicos da época em questão, o livro Senhora é riquíssimo, um precioso registro para se recuperar memórias linguísticas.
Tal livro é um verdadeiro tesouro nas mãos de um Sommelier literário.

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